Apesar de a verdadeira intenção ser a visita a Peniche e à ilha Berlenga, a nossa passagem pelas Caldas, e o percurso pela Rota Bordaliana, revelaram-se uma verdadeira surpresa. Comecemos pelo início, mais precisamente, pelo século XV, quando D. Leonor fundou as Caldas da Rainha. O nome da cidade quase que explica toda a história que está por trás desta fundação. D. Leonor, esposa do Rei D. João II, era sua prima direita e tornou-se Rainha por casamento, em 1481. Reza a lenda que, no caminho de Óbidos para a Batalha, D. Leonor cruzou-se com um grupo de pessoas que se banhavam em poças de água perto da estrada e, quando questionadas sobre o que faziam, terão dito que as referidas águas ajudavam-nas a sentir-se melhor das suas maleitas. Sensibilizada pelo que observara e preocupada com os pobres e desfavorecidos do reino, empenhou-se na construção daquele que é considerado por muitos o primeiro Hospital Termal do mundo, custeando essa mesma construção. Esta estância termal, com fins hospitalares, para a cura de várias doenças através das propriedades das águas, contribuiu para o grande desenvolvimento da região. Não é por acaso que os habitantes das Caldas são conhecidos por ‘águas mornas’ sendo, no entanto, mais utilizado o termo ‘caldenses’.

Falar das Caldas da Rainha não é falar apenas da Rainha D. Leonor. Há inúmeros protagonistas que condimentam a história desta terra e das suas gentes e que marcaram profundamente a época em que se movimentaram. Apesar de não ser natural das Caldas, Rafael Bordalo Pinheiro foi um desses protagonistas. Caricaturista, ilustrador, autor de banda desenhada, editor, decorador e figurinista, ceramista, jornalista e professor, é considerado o maior artista plástico português do século XIX.

Ao longo da sua vida, foi ganhando um gosto singular pelas artes plásticas, começando a destacar-se na temática do humor e do grafismo. Em 1875, alcança o auge da sua carreira, com a publicação, no jornal humorístico A Lanterna Mágica, da figura “O Zé Povinho”. Simbolicamente, esta personagem representa não só o povo português, mas também o descontentamento generalizado da sociedade perante situações políticas, sociais, económicas que marcavam o país ao longo da sua história. É uma personagem do meio rural, analfabeta, que recorre ao gesto saloio, obsceno e carregado de expressividade, o manguito. Tal gesto, é traduzido pelo descontentamento do povo que refuta, por exemplo, um imposto, uma descida dos salários, entre outros factos. Em 1884, aliado à sua atividade de caricaturista e ilustrador, experimenta o barro e decide dedicar-se ao ofício. É nesta altura que o seu nome começa a ser associado às Caldas da Rainha porque é aí que compra a Fábrica de Faianças, onde as suas personagens ganharam forma tridimensional. Como forma de homenagem a este homem que abraçou esta terra como sua casa, surge a Rota Bordaliana que, através de figuras produzidas em escala gigante e espalhadas pela cidade, permite conhecer não só o trabalho de Bordalo Pinheiro mas também a própria cidade. Segue-se a reportagem completa da rota. (Pela ordem: O Zé Povinho, a Saloia com cesto, a Aldeia dos Macacos, a Folha de Couve, os Cogumelos, a Tartaruga, o Cogumelo, o Sardão, o Polícia, a Vespa, o Padre Cura, as Rãs, o Lobo, as Andorinhas, o Gato a caçar, o Gato Assanhado, os Sardões e a Ama das Caldas.)