A propósito da iniciativa Porto Bridge Climb, que me levou a escalar uma das partes do arco da Ponte da Arrábida para vislumbrar a já denominada ‘vista mais secreta do Porto’, fiquei a saber a história da sua construção e outras histórias que vão passando de boca em boca e que, assim, não se perdem no tempo.

A travessia da primeira ponte permanente entre as margens de Vila Nova de Gaia e o Porto começou por fazer-se no século XIX, através da Ponte das barcas, 33 barcaças unidas por cabos de aço. A força do rio e, principalmente, as Invasões Francesas levaram ao rápido desgaste desta estrutura, levando à construção da Ponte Pênsil, em 1843, iluminada a petróleo quando não havia luar e cujos pilares ainda existem na margem Norte. Em 1886, foi substituída pela Ponte D. Luís que, ao contrário do que muitos dizem, não foi projetada por Eiffel. Na verdade, a sua empresa também participou no concurso mas a proposta escolhida foi a de um seu antigo sócio. Eiffel terá tido na Ponte ferroviária Maria Pia, a sua grande oportunidade de projeção mundial. Na segunda metade do século XX, impôs-se uma nova travessia rodoviária, a primeira ponte da modernidade naquela que é a ‘cidade das pontes’. A encomenda foi feita a Edgar Cardoso, um engenheiro sabedor do assunto.

Financiado pelo Estado Novo, o projeto foi integralmente concebido e construído pela engenharia portuguesa. Iniciada em maio de 1957, a construção começou nas margens graníticas e rochosas do rio Douro, com a formação de grandes maciços de betão armado para apoiar a ponte. Também de betão armado, a ponte é formada por um tabuleiro superior com quase 500 metros de comprimento, 26 metros de largura e elevado acima de 70 metros do nível das águas. Inicialmente, o tabuleiro possuía dois viadutos de acesso e duas faixas de rodagem independentes, duas pistas para ciclistas, dois passeios e um separador central. Nas extremidades da ponte, foram, ainda, instalados elevadores e monta-cargas de acesso ao dito tabuleiro. Por baixo, um arco com um comprimento medido em linha de 270 metros entre os apoios nas margens do rio, valeu à obra um reconhecimento ainda maior a nível mundial, não havendo, na altura, outra ponte com um vão tão elevado. À época, apesar de todos os avanços tecnológicos, a empreitada não foi tarefa fácil. O arco da ponte é uma estrutura que é composta faseadamente, denominada cimbre. O encaixe da parte central, de 500 toneladas, foi a fase que mais interesse e curiosidade suscitou no povo, que nas margens do rio, espreitava cada avanço na obra. Falava-se que muita gente esperava um colapso iminente da estrutura e que até a imprensa mundial aguardava o ‘grande desastre’ e não a grande proeza, como de resto veio a acontecer.

A fase mais complicada da obra estava, assim, ultrapassada, e com sucesso! Seguiu-se a betonagem das costelas da ponte, a construção da grade que as une e sobre ela ergueram-se pilares. A obra, que durou 6 anos, contou com uma média diária de 400 operários, 8 milhões de horas de trabalho, quase 20 000 toneladas de cimento e 58 000 metros cúbicos de betão. A 22 de junho de 1963 é inaugurada pelo então Presidente da República, Américo Tomás. Salazar não esteve presente no evento, mas há relatos de uma visita deste à obra, ainda durante a construção.

Em 2013, ano do cinquentenário da sua inauguração e, ao mesmo tempo, do centenário do nascimento de Edgar Cardoso, a Ponte da Arrábida foi classificada como Monumento Nacional. Desde junho de 2016 que a iniciativa Porto Bridge Climb está disponível para quem quiser percorrer e conhecer “por dentro” a ponte, o seu arco e a história da sua construção. São 262 degraus, o equivalente a um prédio de 18 andares, com o objetivo de alcançar a tal ‘vista mais secreta do Porto’. A subida clandestina que muitos fizeram em tempos, deu origem a uma atividade segura e interessante e que vale a pena experimentar!

Reservas em Porto Bridge Climb.