Maria Miguel Cardeiro, concurso de Martelinhos de São João

De ressaca, algumas cidades acordam daquela que é considerada a noite mais longa do ano. O motivo, a comemoração do dia de São João. Ao contrário do que muitos poderão pensar, São João Baptista não é o padroeiro da cidade do Porto. O epíteto pertence a Nossa Senhora da Vandoma, também conhecida por Nossa Senhora do Porto. São João Baptista era filho de Zacarias, um sacederdote judaico, e de Isabel, prima de Maria, sendo o principal responsável pela introdução do Batismo no Cristianismo. Foi ele, quem batizou Jesus Cristo nas margens do rio Jordão e é o santo protetor dos casados e dos doentes.

A festa faz-se, sobretudo, na rua. Começa dias antes, com a compra do manjerico que aromatiza o ambiente e anuncia a grande noite. Na rua da casa dos meus pais tudo era festa e família. Em criança lembro-me das fogueiras que se faziam à porta das casas para assar as sardinhas. As crianças juntavam-se aos magotes e, sem medo, percorriam a rua. Saltavam nas fogueiras, martelavam e deixavam martelar-se, quando, pelo meio, não eram surpreendidas pelo cheiro nauseabundo de um alho porro atrevido. Havia uma mistura de sons que concorriam no volume, quase todos de música popular. Anos mais tarde, depois da sardinhada onde não podiam faltar as sardinhas, a broa, os pimentos e o caldo verde, chegava a hora de ir com os primos e amigos para a baixa. Recordo-me de, num certo ano, descer a longa avenida de Gaia a correr, em direção ao Jardim do Morro, num cordão humano sem fim e, depois do fogo de artifício, irmos a pé até a uma praia da Foz do Douro, onde fizemos uma fogueira e aí aguardámos pelo nascer do sol.

Hoje em dia, quase tudo se mantém, exceto a parte do nascer do sol! Cá em casa, já habita um manjerico. Já comemos as sardinhas que nos sabem melhor nesta noite, o martelo não pára a sua atividade, além do apito que nos ensurdece constantemente e nos faz pensar em esconder o instrumento do pequenote. Já lançámos os balões de ar quente feitos em papel colorido e que salpicam o céu da cidade numa incandescência digna de um postal. Viva, o São João!