O ano começou. Para já, sem surpresas menos agradáveis e notícias que não queremos receber. E que se mantenha assim! No entanto, há 12 anos foi tudo menos isso. É impossível esquecer tal início de ano e, por esse motivo, ao longo do dia de hoje tenho tido várias lembranças. 2 de janeiro de 2006. Prestes a iniciar o 2.º período de aulas, tudo preparado para o arranque, batem-nos à porta a dar a triste, e real, notícia. Os meus pais tinham tido um acidente. O chão desapareceu-nos. A vida a prestar-nos rasteiras e as vidas a ficarem suspensas e a lembrarem-nos que nada somos, em nada mandamos e que a saudade está à distância de um segundo. Com calma e com a energia que não pensávamos ter, renascemos! E estamos aqui, hoje, ainda juntos, celebrando a vida, e com saúde. Também no dia de hoje, lembrei-me de um texto que escrevi sobre o assunto e que, na altura, foi o que me ocorreu e a forma como me sentia, no decorrer de uma formação que fiz sobre a construção de narrativas descritivas. A descrição, embora exagerada, é real. A narrativa, nada exagerada, é sentida e sofrida. Partilho convosco o texto.


Domingo, 8 de Janeiro de 2006. Estou cansado. O céu está cinzento e carregado de nuvens que ameaçam chorar. Desço para a garagem de elevador e tiro o carro. Pensativo, percorro as ruas Gaia e, mecanicamente, dirijo-me ao hospital. Vou ter com a minha mãe (vou vê-la! Há poucos dias pensava que nunca mais…). O sinal luminoso vermelho obriga-me a parar. O piso está molhado e perigoso mas parece não abrandar a fúria de muitos condutores que, tento perceber e mesmo sendo Domingo, devem estar com pressa de ir trabalhar. Contorno a rotunda de Santo Ovídio, deserta para o que é habitual, e começo a subir o íngreme Monte da Virgem. Chego ao hospital e reparo na quantidade de carros estacionados. Desligo o carro e preparo-me para enfrentar a chuva lá fora. Pego no velho guarda-chuva azul, na saca de papel e saio. Já no interior, reparo na temperatura quente que se faz sentir. Os radiadores queimam o oxigénio do ar, fazendo com que o ambiente fique ainda mais carregado. Subo as escadas que dão acesso a um longo e escuro corredor. Ao fundo, entro na unidade de Cirurgia Cardio-Toráxica. Percorro as sucessivas enfermarias, lotadas de familiares, amigos, médicos, enfermeiros, auxiliares, …. que visitam/cuidam dos seus doentes. Procuro a placa que diz Enfermaria D e entro. Lá está ela: sentada no confortável cadeirão de pele preta, com as pernas esticadas sobre uma cadeira também ela preta. Logo que me vê, sorri e diz “Então, meu filho?!”. Dou-lhe um beijo e cumprimento as restantes três doentes da enfermaria. Estão todas bem dispostas e ficam ainda melhor sempre que alguma recebe visitas. Pergunto à mãe se passou bem a noite e se o médico já lhe deu alta. Responde-me, ansiosamente, que não e que espera sair ainda hoje. Entretanto, retiro da saca de papel um tupperware com morangos, com aspeto suculento, cortados em gomos médios e ofereço às quatro doentes. Todas aceitam e faço a distribuição por cada uma. Sinto que estou a tornar o dia menos triste para cada uma delas e sinto-me bem por isso. O momento é interrompido pela entrada da enfermeira do turno, que vem dar os comprimidos prescritos pelos médicos. Questiono-a pela alta da minha mãe ao que me responde que o médico já está a tratar de tudo. Fico descansado e feliz por chegar a casa e levar a minha mãe, novamente, para junto de nós. Reparo que está ansiosa e cheia de vontade de sair dali. Olho para a porta de entrada e reparo na enfermaria em frente: um senhor idoso, de cabelos brancos, muito magro está deitado na cama com a máscara de oxigénio. Os familiares que o visitam estão fardados com uma bata verde e com uma máscara em toda a face. A imagem é arrepiante, triste e de desgraça. Respiro fundo e volto à conversa com a mãe. O médico chega, finalmente, à enfermaria. Depois de nos fornecer as recomendações necessárias, entrega-nos os documentos da alta e deseja rápidas melhoras. A minha mãe vai sair do hospital! Arrumamos as tralhas e começamos as despedidas. Vive-se um misto de felicidade e de tristeza. Felicidade para os que saem e tristeza para os que, ainda, ficam. O sentimento de solidariedade é reforçado com a troca de contactos entre as quatro pacientes e as promessas de ainda se virem a encontrar longe daquele local frio, “vazio” e triste, como é um hospital. Já estamos no exterior e não chove. Com todo o cuidado, ajudo a minha mãe a descer os degraus da escadaria molhada e gasta e a sentar-se no almofadado e fofo assento do carro. Seguimos para casa. O velocímetro marca 40 Km/h e mantenho a velocidade para não provocar solavancos no carro para a mãe não sentir dores. As ruas continuam desertas. O mau tempo é o coro do nosso estado de espírito. Sinto a minha mãe como se estivesse a ver aquelas ruas pela primeira vez. Chega a reparar em pormenores que outrora nunca se apercebera. Chegados a casa e, depois de entrar pela garagem, subimos de elevador até ao nosso andar. Agora, até eu estou nervoso. Ouve-se uma mistura de vozes vinda do interior de nossa casa que não conseguimos decifrar. Logo que abro a porta somos “esmagados” por abraços e cumprimentos dos familiares que nos esperavam. Entre eles, uma pessoa mais que qualquer outra ansiava por este reencontro. O meu pai de lágrimas nos olhos, abraça e beija a minha mãe como se ela ressuscitasse. Sinto o meu coração pequenino mas com coragem para seguir em frente. Afinal, reencontrámo-nos, os quatro, outra vez!