Já passou! Mais um Natal que passou! Este ano o meu 37.°. Sempre gostei desta quadra festiva, não fosse o pretexto ideal para reunir a família, sentar à volta de uma mesa com os que mais estimamos, perdendo-nos no açúcar da conversa e na nostalgia de outros natais, os de criança, aqueles que , nestas alturas, nos fazem abrir o baú das recordações. Os nossos natais, até há bem pouco tempo, foram sempre passados em Braga, em casa de familiares. Todos os anos o ritual era o mesmo. Seguíamos mais cedo com a avó, passávamos uns dias lá em Braga e aguadávamos ansiosos pela noite de Natal, aí sim já com os meus pais presentes. A mesa, grande, era posta com os melhores pratos, os melhores talheres e os melhores copos. Havia lugar próprio para os doces e frutas. A lareira não faltava, assim como a braseira debaixo da mesa redonda junto ao sofá que nos fazia mergulhar numa profunda preguiça e sonolência. O cheiro, característico, ainda o sinto. O bacalhau e as pencas, geralmente vindas do Douro, sabiam melhor que noutra qualquer altura do ano! As rabanadas e o leite creme da avó. Depois, o compasso de espera pelo Pai-Natal que respeitava sempre as doze badaladas. Não tenho bem presente até quando acreditei na sua existência, mas recordo-me de encontrar presentes guadados nos roupeiros lá de casa dos meus primos, denunciando que algo não batia certo. Depois, as movimentações suspeitas deles na altura de se irem preparar. Não tardámos a alinhar na encenação do faz de conta! Seguia-se a abertura dos presentes, o rasgar do papel e o olhar de expectativa e de entusiasmo de cada um de nós. Nunca fui de pedir seja o que for, de escrever ao Pai-Natal, nem de receber brinquedos que na altura eram considerados “da moda”. Recordo-me de receber roupa, geralmente as meias marcavam presença, assim como as camisolas e os pijamas. Por vezes, um livro, material para a escola e um ou outro jogo e brinquedo. Papéis de embrulho amontoados, laços espalhados, a euforia da novidade! O querer prolongar a noite para o dia seguinte, esse sim de Natal! A ida, já tardia, para a cama continuava agitada e ansiosa pela manhã que nasceria. Todos os minutos eram poucos para explorar todas as novidades. No dia 25, na cozinha, o cheiro a bacalhau já se sentia, desta vez com o farrapo velho cada vez mais desfeito e a fumegar na panela. A travessa com a carne e as batatas para fazer o assado que nunca podia faltar. A conversa, os afetos e o açúcar, novamente em redor de uma mesa… este ano, tal como os outros, não foi muito diferente. Claro que mudámos os hábitos, já não vamos a Braga e já nao acreditamos no Pai-Natal. Tudo o resto mantém-se, sendo que uma nova geração está a viver tudo o que vivemos e faz-nos reviver o que recordamos de coração cheio. Há uma mesa, há bacalhau, há pencas, há farrapo velho, há assado, há doces e há prendas, que incluem meias! Há familia, há amor e há afetos, muitos! O Natal já passou, é certo! Mas queremos que venham outros, o que também é certo! Para isso, que venha 2018, com saúde porque tudo o resto constrói-se!