Esta semana o meu pai fez 71 anos. O número é um pouco assustador mas, pensando no aproveitar da reforma e na qualidade com que ainda vive o dia a dia, com saúde e na companhia da mãe, é mais fácil para nós, filhos, não pensarmos na passagem do tempo e na finitude que é esta vida! Não foi bem por causa do aniversário do meu pai que me lembrei de aqui escrever estas linhas. Hoje, dei por mim a pensar de quando, em criança e juntamente com a minha irmã, acompanhávamos o meu pai nas compras semanais para a casa. A manhã de sábado era sagrada. Depois de deixarmos a mãe a trabalhar, mesmo antes das nove horas, rumávamos ao Continente, que na altura já existia em Gaia. Não era propriamente o fazer as compras que nos cativava mas sim o que iríamos poder comprar, para nós, naquele dia. A minha irmã era mais dos livros e eu adorava canetas e lapiseiras. Bastava falarmos que gostávamos de ter isto ou aquilo, e o meu pai lá nós fazia a vontade. Não era preciso muito! Não me lembro de o ver chatear-se muito em dizer que não podíamos comprar alguma coisa. Analisando bem a situação agora, penso que ele gastava balúrdios nas compras e connosco. Todos os sábados lá vinha mais um livro, lá vinha mais uma caneta. Os tempos são outros e há uma grande diferença nos produtos disponíveis, aliciantes para uma criança e que são a grande dor de cabeça dos pais. Os desafios para nós, agora pais, outrora filhos que também gostávamos de ter e comprar, são de uma escala muito maior. A televisão, os colegas de escola, a pressão de tudo e de todos para seguir tendências e modas. Não quero ser forreta, não quero que o João pense que os pais podem dar tudo e que tudo isso é pouco. Gostava que ele crescesse com a consciência dos limites, do poder e do ter. A tarefa não é fácil mas pode fazer a diferença na construção de um futuro responsável. O meu pai pode ter cedido quase sempre ao nosso pedido. Sou grato por tudo o que nos deu e do tanto que ainda nos dá. Pode não ter sido o exemplo de economista familiar! Mas, apesar de tudo, deu-nos as ferramentas para que, agora, fizéssemos e pensássemos de maneira diferente e responsável. Apesar de tudo, educou-nos. É o nosso pai e está de parabéns. Parabéns, pai!