Não, não te vou falar de alguma campanha de uma qualquer superfície comercial, nem tão pouco fazer publicidade a qualquer produto relacionado com material escolar. Hoje foi o primeiro dia de aulas em alguns estabelecimentos de ensino e, como em todos os primeiros dias de aulas, sente-se a ansiedade e a agitação no ar. 

O 1.° dia de um aluno

O dia começa mais cedo, muito mais cedo que nos últimos tempos em que a cama e a preguiça puxam-nos para a posição horizontal. As horas de sono foram bem menos, mesmo depois de nos deitarmos mais cedo no dia anterior e termos andado a virar-nos de um lado para o outro, cerca de uma hora, sem “pregar olho”, à espera que o sono chegue… Até que o despertador toca e começa o rodopio. Banho, pequeno-almoço, trânsito, o encontro com as caras de sempre mas que revemos antes mesmo da primeira aula. Tudo tem que ser contado. Nenhuma novidade pode ficar por revelar e depois…a entrada na sala de aula! Ver se há caras novas nos colegas de turma e esperar, aula a aula, para confirmar se o professor é aquele que queremos porque já o conhecemos bem e gostamos do seu trabalho ou, se o professor já não é aquele que nunca quisemos para nós ou, ainda, se o professor é aquele que gostaríamos de ter porque nos falaram maravilhas do seu trabalho ou porque, simplesmente, é o professor porreiro. Preferências à parte, porque isto de gostar de um professor é muito relativo, o que é certo é que passamos muitas horas numa sala com eles. Aprendemos com eles. Sem nos apercebermos, ensinamo-los também. Por vezes, choramos com eles, rimos com eles e também passeamos juntos numa qualquer visita de estudo. Perguntam-nos se as férias foram boas e se estamos com vontade de recomeçar. Rimos. Estamos com saudades mas de estar com os amigos, do ambiente da escola, das brincadeiras no recreio, dos lanches no bar, das visitas de estudo longas e de preferência daquelas em que não dormimos em casa. Das conversas cruzadas na sala de aula e dos olhares cúmplices. Das trocas de ideias nos testes quando o professor se distraiu a olhar pela janela. Afinal, temos saudades do que vivemos no passado com os nossos colegas e professores. Passar pelas mesmas emoções que já vivenciámos e gostámos. Afinal, o regresso às aulas é o que nos permite replicar todas essas emoções. Afinal, regressar às aulas é bom! O ritmo readquire-se logo no final deste dia cheio de frenesim, o primeiro! O primeiro de um ano que se pretende melhor que o anterior e pior que os seguintes. Mas, em todos eles, o primeiro é especial!

O 1.° dia de um professor
O dia começa outra vez cedo, à mesma hora que nos últimos que foram de correria e azáfama para ter tudo pronto para o grande dia, o primeiro! As horas de sono têm sido bem reduzidas. Acordar cedo e aproveitar ao máximo o serão para relaxar das horas de rodopio. Na véspera e já tarde, deitamo-nos e começamos a pensar no que aí vem. E não é o sono! Viramo-nos de um lado para o outro cerca de uma hora, sem “pregar olho”, à espera que o sono chegue… Até que o despertador toca e começa o dia D. Banho, pequeno-almoço, trânsito, o encontro com as caras de sempre mas que revemos antes mesmo da primeira aula. Que grandes que eles estão! Que pulo que deram! Que grande animação para um dia de “aulas”. Claro que não é um dia qualquer. Digamos que é o início de tudo! Está tudo pronto para me dirigir à sala. Eles, aguardam e seguem a minha direção. A cara deles denuncia dúvida se abrirei a porta da sua sala ou seguirei para outra. Às vezes, sigo em frente para ver as reações e gosto do que vejo. Também gosto destas pequenas partidas. Segue-se a entrada na sala de aula! Ver se há caras novas na turma. Deixá-los redescobrir o seu espaço e o meu. Deixá-los acalmar das primeiras emoções vividas no recreio, mesmo antes de entrarem para a sala. E esperar, aula a aula, para confirmar se aquele aluno está melhor que no ano anterior porque deu muitos problemas, se o outro já não passa a aula a tentar conversar com o colega da frente sobre tudo o que não tem a ver com o que está a ser feito, se aqueles dois ainda trocam olhares cúmplices ou já nem se falam, … viver muitas horas numa sala com eles! Ensinar-lhes o que melhor percebemos. Aprender com eles, mesmo que não queiramos admitir que isso acontece e muito. Chorar com eles, rir com eles e também passear com eles numa qualquer visita de estudo. Perguntar-lhes se as férias foram boas e se estão com vontade de recomeçar. Notar nos seus olhares que queriam férias para sempre. Rever as matérias mais que trabalhadas e eles insistirem que não se lembram de nada. Explicar tudo outra vez, como se fosse do zero. Na verdade, é assim o primeiro dia de aulas de um professor! Recomeçamos como se fosse do zero mas sentindo-nos cada vez mais próximos dos alunos, numa relação de partilha constante. Afinal, parece que o primeiro dia de aulas não custa. E… já passou! 

Mais uma viagem que agora começa. Uma viagem que se espera sem contratempos e que nos faz estar com atenção redobrada. Sejamos alunos ou professores! Atentos a tudo, recetivos a tudo mas também partilhando. Só assim se constrói a relação professor-aluno. Já vivi o primeiro dia de aulas inúmeras vezes, quer como aluno quer como professor. De todas as vezes com a mesma ansiedade mas, ao mesmo tempo, com a mesma esperança de que o trabalho e o envolvimento de todos “move montanhas”. A todos os alunos e a todos os professores, que empurram a montanha, um bom Ano Letivo!