A ideia surgiu quase de um dia para o outro. Isto de arranjar atividades diferentes para o pequenote não é assim tão fácil, ainda por cima atividades que não saiam muito do orçamento. Esta, não querendo que fugisse, saiu um pouco do que seria desejado. Mas, no final, valeu a pena! Muito! Venham daí conhecer um pouco do que Aveiro nos ofereceu. O dia estava propício ao passeio e foi acordar, tomar o pequeno almoço e sair, a pé, rumo à estação dos comboios das Devesas. Comprámos os bilhetes apenas para nós porque o João ainda não paga. Por adulto, o preço de ida é de 3,15€. Depois de cerca de 45 minutos de uma viagem tranquila, chegámos ao destino. 

A estação é relativamente recente e foi construída ao lado da mais antiga que em termos de beleza tem muito mais história e histórias para nos contar. Inaugurada em 1864, a estação está ornamentada com painéis azulejares, datados de 1916, retratando episódios regionais da vida tradicional portuguesa. Ficámos um pouco surpreendidos com a falta de obras do edifício que merece toda a nossa estima! É que igual a este já não há, por isso há que preservar o nosso património. 

Calcorreando um pouco pela avenida que dá acesso à estação fomo-nos aperecebendo da quantidade de turistas que por ali andavam. Espreitámos o mercado da cidade, o mercado Manuel Firmino, que não estava com muita gente. No entanto, ofereceu-nos cor e sabor difíceis de resistir. 

Estávamos um pouco a seguir sem rumo mas logo nos apareceu um dos canais que atravessam a cidade, os da Ria de Aveiro, uma das duas únicas rias que o país tem. A outra é a ria Formosa que noutro post te falarei. Pelos canais, inúmeros Moliceiros desfilavam de um lado para o outro com os turistas a bordo, fazendo em tudo lembrar Veneza. Não será por acaso que se utiliza a expressão Veneza portuguesa para nos referimos a Aveiro. Os Moliceiros são barcos de trabalho usados originalmente para apanhar moliço. O moliço é uma planta aquática que era a principal fonte de adubagem dos terrenos agrícolas de Aveiro. Estes barcos são de borda baixa o que facilitava o carregamento do moliço e têm uma ré e uma proa muito elegantes que normalmente têm o nome dado pelo seu dono à embarcação e algumas pinturas que ridicularizam situações quotidianas. Atualmente os moliceiros são mais usados para fins turísticos do que para o seu propósito original.

Perguntámos de imediato onde poderíamos comprar bilhete para fazer uma viagem de Moliceiro e bastaram uns metros para encontrarmos uma de dez empresas que operam com moliceiros na ria de Aveiro, a Onda Colossal. O preço por adulto é 10€ e as crianças até aos 4 não pagam. A viagem demora 45 minutos e ainda se tem direito a um guia turístico que fala em, pelo menos, quatro línguas. E fala mesmo, dada a quantidade de estrangeiros! Não fosse a beleza que o nosso país já nos habituou, por momentos pareceu-nos estar noutro país. Depois dos bilhetes comprados, esperámos uns minutos e aproveitámos para descobrir as quatro estátuas em bronze que fazem parte das quatro extremidades de uma das pontes do canal central. As estátuas representam quatro figuras tradicionais da cidade: duas do meio laboral (a Salineira e o Marnoto) e as outras duas associadas aos dias de festa (o Fogueteiro e a Parceira do Ramo). 

Já a bordo, partimos nesta viagem que só nos traz boas lembranças! O primeiro destaque arquitetónico dos edifícios vai para a presença da Arte Nova em algumas construções, o que faz também conhecer Aveiro como a cidade-museu da Arte Nova em Portugal. Este estilo, que floresceu na Europa nos inícios do século XX, foi aplicado também em Aveiro trazendo como ideia inovadora a introdução de elementos característicos do estilo num suporte tão tipicamente português que é o azulejo.

De seguida, os nossos olhos focaram-se nos montes de sal presentes nas salinas. A exploração de sal sempre foi uma das importantes atividades económicas da região, contudo, a concorrência feroz de outros produtos e outros mercados faz com que o setor tenha que arranjar oportunidades para se reinventar.

Virando para o canal de S. Roque, conhecemos o bairro dos pescadores e marnotos (que trabalham nas salinas, extraindo o sal manualmente) que tem vindo a ser revitalizado, mantendo a estrutura das casas tal como eram no passado. Ainda existem dois armazéns, já recuperados, de extração de sal onde hoje funciona um restaurante. 

Ao longe, o Mercado do Peixe, de 1910, onde podemos comprar o peixe acabado de chegar do mar e, se quisermos, subir ao primeiro andar no qual funciona um restaurante onde o protagonista é o peixe, claro! 

Passámos ainda sob a ponte dos Carcavelos, a mais antiga da cidade, que era de madeira mas depois foi reconstruída porque caiu. Nesta ponte, consta uma representação de uma ave piscatória que também é um dos símbolos de Aveiro.  Daí o nome Aveiro, que vem de ave. 

De regresso ao canal principal, passámos pelo edifício da Capitania do Porto de Aveiro, um antigo moinho de maré posteriormente utilizado para dar apoio à fábrica de porcelanas de José Ferreira Pinto Basto, fundador da Vista Alegre, e mais tarde transformado para alojar a Escola de Desenho Industrial. O edifício pertence atualmente à Câmara Municipal de Aveiro. 

Seguindo viagem para a zona mais recente da cidade, abeirámo-nos do Fórum Aveiro, conceituada superfície comercial no topo da qual é possível desfrutar da vista sobre a cidade, no jardim das Oliveiras. Mais à frente, uma outra ponte vestida de fitas coloridas atadas por quem lá passa e desejando enlaçar a amizade ou o amor, a Ponte dos Laços. Quem visita Aveiro e quiser ‘enlaçar-se’ poderá adquirir a respetiva fita colorida no Posto de Turismo, em qualquer quiosque ou lojas associadas. As verbas resultantes da venda das fitas revertem para as Festas de São Gonçalinho.

Os estilo de casas neste lado da cidade é muito diferente do tradicional, no entanto é sempre possível, e com imaginação, espelhar nas construções a história da cidade.

Mesmo a acabar o percurso de Moliceiro, referência à antiga fábrica de cerâmica Jerónimo Pereira Campos, que hoje integra um importante Centro de Congressos e o Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Chegados aos cais, atracámos e fomos almoçar. Há muitas opções de refeição disponíveis e com preços de menus com o básico incluído. Por 8 a 10 euros já se faz uma boa refeição, e de peixe porque há que comer o que a terra nos dá de melhor! Para o período da tarde ficou reservada a visita à Sé de Aveiro e ao Parque da Cidade, o Parque Infante Dom Pedro. Depois de uma sobremesa 100% nacional, nos Gelados de Portugal, demos início à visita à Sé. A origem da Sé de Aveiro remonta ao século XV, na altura designada por igreja do Convento de S. Domingos. Já sofreu muitas alterações desde essa altura e a sensação com que se fica é que é um edifício mais recente do que realmente é. Destaca-se a decoração sóbria e leve, na perpendicular do altar foi colocada uma cúpula em estuque do estilo Arte Nova com vários motivos da paixão de Cristo. A igreja tem dois órgãos, sendo um deles mais atual. Os olhos também se prendem aos painéis de azulejos que ladeiam a coxia central, datados do século XVIII.

O Parque Infante Dom Pedro foi construído em 1862 numa antiga propriedade dos frades franciscanos, numa zona que pretencia ao Convento de Santo António. É atravessado por uma ribeira que foi aproveitada para construir lagos e fontes. Tem muitas árvores e foi uma boa escolha para terminar este passeio por Aveiro.

Claro que muito ficou por ver nesta cidade de inúmeros epítetos! Mais uma razão para voltar. Mas para já, ‘Fui ali e já voltei’!