A respeito do título ‘Morreu a primeira mulher a vencer o mais prestigiado prémio de matemática’, na página online do jornal Público do dia 15 de julho de 2017, fiquei com curiosidade em perceber quem era a tal mulher e conhecer um pouco da sua história. Entretanto, aproveito este post para explicar melhor qual a história do Prémio Nobel a Matemática que, afinal, não existe!

História dos Prémios Nobel

Alfred Nobel, químico, engenheiro e industrial, nasceu na Suécia em 1833 e morreu aos 63 anos em Itália. É-lhe atribuída a invenção da dinamite, e outros explosivos mais potentes, e a ele está ligada a criação dos prémios com o seu nome. Com o sucesso das suas invenções e com os vários trabalhos na exploração de campos petrolíferos, fez fortuna e deixou em testamento a intenção de criar uma fundação que, entre outras iniciativas, premiasse as invenções e descobertas de maior benefício prático para a Humanidade. Ora, as categorias escolhidas para a atribuição dos referidos prémio foram Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Letras e Paz, ficando de fora a área que, de certa forma, acaba por ser reconhecida como importante em todas as outras.

Prémio Nobel a Matemática que não existe: a culpa é do amor?

São apontadas várias razões para a Matemática não ter sido contemplada para a atribuição de um Prémio Nobel, no entanto, consta-se que esta decisão terá partido de Nobel por se ter interessado por uma mulher e, ao declarar-se a ela, foi recusado, em detrimento de um matemático que lhe “enchia mais as medidas”. Não há, no entanto, evidências históricas que corroborem esta explicação. Provavelmente, o motivo passou por Nobel ver na Matemática uma área essencialmente teórica e que não traz um grande ‘benefício prático para a Humanidade’.

Medalha Fields – o mais próximo de um Prémio Nobel na área da Matemática

O prémio é o equivalente do Nobel para a Matemática, oficialmente conhecido como Medalha Internacional de Descobertas Proeminentes em Matemática. São atribuídas pela União Internacional de Matemática (UIM),  de quatro em quatro anos (nos anos em que existe Campeonato do Mundo de Futebol), tendo dois a quatro vencedores, no máximo com 40 anos de idade, por edição. A medalha tem o valor monetário de 15.000 dólares canadianos (10275 euros), vindos de um fundo administrado pela Universidade de Toronto, no Canadá. O matemático canadiano John Charles Fields, que deu nome à medalha, concebeu o prémio em 1920 mas, devido à uma doença de que padecia, não vivenciou a concretização da sua ideia. Morreu aos 69 anos, quatro anos antes do galardão ser entregue pela primeira vez. A atribuição do prémio, depois desta primeira cerimónia, foi interrompida por 14 anos, sendo retomada em 1950. 

in O Globo

Abaixo encontra-se a relação de laureados (e instituição que representam)  por ano de atribuição do prémio.

1936

        Lars Valerian Ahlfors (Harvard University)
Jesse Douglas (Massachusetts Institute of Technology)

1950

        Laurent Schwartz (University of Nancy)

Atle Selberg (Institute for Advanced Study, Princeton)

1954

       Kunihiko Kodaira (Princeton University)

Jean-Pierre Serre (University of Paris)

1958

        Klaus Friedrich Roth (University of London)

René Thom (University of Strasbourg)

1962

        Lars V. Hörmander (University of Stockholm)

John Willard Milnor (Princeton University)

1966

        Michael Francis Atiyah (Oxford University)

Paul Joseph Cohen (Stanford University)

Alexander Grothendieck (University of Paris)

Stephen Smale (University of California, Berkeley)

1970

        Alan Baker (Cambridge University)

Heisuke Hironaka (Harvard University)

Serge P. Novikov (Moscow University)

John Griggs Thompson (Cambridge University)

1974

        Enrico Bombieri (University of Pisa)

David Bryant Mumford (Harvard University)

1978

        Pierre René Deligne (Institut des Hautes Études Scientifiques)

Charles Louis Fefferman (Princeton University)

Gregori Alexandrovitch Margulis (Moscow University)

Daniel G. Quillen (Massachusetts Institute of Technology)

1982

        Alain Connes (Institut des Hautes Études Scientifiques)

William P. Thurston (Princeton University)

Shing-Tung Yau (Institute for Advanced Study, Princeton)

1986

        Simon Donaldson (Oxford University)

Gerd Faltings (Princeton University)

Michael Freedman (University of California, San Diego)

1990

        Vladimir Drinfeld (Phys. Inst. Kharkov)

Vaughan Jones (University of California, Berkeley)

Shigefumi Mori (University of Kyoto)

Edward Witten (Institute for Advanced Study, Princeton)

1994

        Pierre-Louis Lions (Université de Paris-Dauphine)

Jean-Christophe Yoccoz (Université de Paris-Sud, Orsay, France)

Jean Bourgain (Institute for Advanced Study, Princeton)

Efim Zelmanov (University of Wisconsin)

1998

        Richard E. Borcherds (Cambridge University)

W. Timothy Gowers (Cambridge University)

Maxim Kontsevich (IHES Bures-sur-Yvette)

Curtis T. McMullen (Harvard University)

2002

        Laurent Lafforgue (Institut des Hautes Études Scientifiques, Bures-sur-             Yvette, France)

Vladimir Voevodsky (Institute for Advanced Study, Princeton)

2006

        Andrei Okounkov (Princeton University)

Grigori Perelman (Russia) [declined award]

Terence Tao (University of California, Los Angeles)

Wendelin Werner (Université de Paris-Sud, Orsay, France)

2010

       Elon Lindenstrauss (Hebrew University of Jerusalem)

Ngô Bao Châu (Institute for Advanced Study, Princeton)

Stanislav Smirnov (Université de Genève, Switzerland)

Cédric Villani

2014

        Artur Avila (Centre National de la Recherche Scientifique)

Manjul Bhargava (Princeton University)

Martin Hairer (University of Warwick)

Maryam Mirzakhani (Stanford University)


Maryam Mirzakhani – Medalha Fields 2014

Foto: Jornal Público | SONG EUN-SEOK/REUTERS

Pode parecer mais um nome de entre tantos que constam da lista anterior, no entanto, Maryam Mirzakhani foi a primeira mulher a receber a distinção. Nasceu em 1977, em Teerão, começou por querer ser escritora e frequentava uma livraria junto da escola. Só no final do liceu que frequentava, Farzanegan na capital, que depende da “Organização para o Desenvolvimento de Talentos Brilhantes”, criada para descobrir alunos muito bons e sobredotados, decidiu enveredar pela matemática. Recebeu por duas vezes consecutivas a medalha de ouro das Olimpíadas Internacionais de Matemática (1994 e 1995). Licenciou-se na Universidade de Sharif, no Irão, e doutorou-se nos EUA, na Universidade de Harvard em 2004. Não chegou a regressar à sua terra Natal para aí continuar a carreira. Casou com Jan Vondrák, teórico da Ciência da Computação checo, e teve uma filha, Anahita. Atualmente lecionava na Universidade de Stanford, na Califórnia. Morreu em julho deste ano, vítima de cancro da mama.